quinta-feira
Lily.
Então vem você e diz que achou que eu não havia gostado de sua mais recente doçura. Sua carta. E eu nem havia lido. Devo tê-la deixado empoeirada sozinha amarelada debaixo do sofá da sala. Devo ter esquecido. Porque ultimamente ando me esquecendo das coisas. Esqueci como se pronunciam ternuras e aventuras de fim de tarde. Esqueci como se pronuncia desejo, como se faz o grito do sexo, como se rasga a assepsia. É que tudo se mistura no mundo, tudo. E eu fico achando que um pouco de violência me tornaria violenta demais. Um pouco, um pouco, só um pouco. Não sei a medida. Seria como a violência do desejo: vontade urgente de. Só você. Só você entende. Quando a menina balança bem alto e pensa que vai cair em vôo livre. Quando o amor. Quando o pai. Quando o primeiro: aquele homem que ela desejou. Urrando. Depois ela pensa que tudo isso era violência. E começa a imaginar um mundo tão puro, mas tão puro, que nem o mar poderia esbravejar ondulante. Esse mundo sem vento. Sem leões. Nem serpentes. Esse mundo, querida. Parede branca de hospital ou casa. Sem asa.
Toda a violência do mundo, Hipólita. Como é que você faz, Amazona? Quando o cavalo escapa. Quando o cavalo é você. No tornozelo, dizemos: ali onde o amor aperta. E o amor aperta tanto que acabamos por pensar que o tempo inteiro é ele ali. O zelo. E quando o elo afrouxa a gente não sabe o que fazer. Quando o cavalo escapa. Quando o cavalo escapa. A crina do cavalo. Ao vento.
Eu acho bonito que você ande distante disso tudo. Tudo o que todo mundo diz. Falar de filósofos em nada se difere de falar da festa de sábado à noite: é tudo verborragia. Tudo excesso. Ela conta que, lá na festa – maravilhosa festa -, foi muito mais amada do que todas as outras. Fútil? Não. Simplesmente ela e seus possíveis. Simplesmente ela e seu espelho. Simplesmente ela e seus filósofos e seus livros e sua maquiagem e seu vestido azul. Tudo tão pequeno e doce: tudo tão bonito pra mastigar e sentir – néctar. A vida tem néctar. A menina no balanço, a mulher na festa, você tão distante de tudo isso, tão longe daqui. Ou sou eu? Sou eu que me distancio aos poucos, presa à parede branca do hospital ou da casa, acostumada a achar que violência é isso: esse desejo-cavalo que vem e me faz. Aos coices.
A mulher na festa. Era eu. Anos atrás, desfilosofando a vida.
Amantes das palavras: nós. As palavras somos nós. Amantes de nós.
Despeço-me desfilosofando (consigo?). Trêmula diante do espelho, caçando migalhas de amor. Vi uma ali. Ali. Bem ali.
Voou.
Imagem: Toni Frissell - 1947






pungente, Carla. suas cartas concebem confissões que viram espelhos também para quem lê.
Despergunta para a menina do balanço: bom saber que a mulher na festa era você. Hoje multiplicada, multifacetada. Em homens e mulheres. Com o verbo sempre pronto a deslizar sobre o fio esticado. Sem medo de cair. É a vida. É você.
Uma noite dessas fui a um Baile de Máscaras, e na porta uma mulher mascarada me pediu uma senha. Estranhei um pouco, ela deveria me conhecer mesmo com a máscara, mas respondi: 189174201121629. Ela pesquisou no Google e me autorizou a entrada.
Quando entrei a festa estava apenas começando.
Thomas G. Marasco
voou e pousou:
resposta pra vc!
Concordo com a Hipólita. Com você. Com Rimbaud. O que importa é escrever. O resto é literatura.
ando esquecendo também – há muito esqueci que o amor aperta. mas vc trás de volta, outra vez, diante de, muita coisa, obrigada.
Essas palavras…
É de quando, nesse mundo sem vento, a vida insiste em soprar, sorrateira.
Foi um sopro para mim, agora. E voou.
suas palavras me deram um tapa tão forte. ..
uma rasteira certeira,
mas também um colo quando caí.
querida, saudade de outra carta…
precisando de uma resposta pra animar, depois de dias chuvosos.