abr 14th
quinta-feira

Toni Frissell 1947 Carta   Voou

Lily.

Então vem você e diz que achou que eu não havia gostado de sua mais recente doçura. Sua carta. E eu nem havia lido. Devo tê-la deixado empoeirada sozinha amarelada debaixo do sofá da sala. Devo ter esquecido. Porque ultimamente ando me esquecendo das coisas. Esqueci como se pronunciam ternuras e aventuras de fim de tarde. Esqueci como se pronuncia desejo, como se faz o grito do sexo, como se rasga a assepsia. É que tudo se mistura no mundo, tudo. E eu fico achando que um pouco de violência me tornaria violenta demais. Um pouco, um pouco, só um pouco. Não sei a medida. Seria como a violência do desejo: vontade urgente de. Só você. Só você entende. Quando a  menina balança bem alto e pensa que vai cair em vôo livre. Quando o amor. Quando o pai. Quando o primeiro: aquele homem que ela desejou. Urrando. Depois ela pensa que tudo isso era violência. E começa a imaginar um mundo tão puro, mas tão puro, que nem o mar poderia esbravejar ondulante. Esse mundo sem vento. Sem leões. Nem serpentes. Esse mundo, querida. Parede branca de hospital ou casa. Sem asa.

Toda a violência do mundo, Hipólita. Como é que você faz, Amazona? Quando o cavalo escapa. Quando o cavalo é você. No tornozelo, dizemos: ali onde o amor aperta. E o amor aperta tanto que acabamos por pensar que o tempo inteiro é ele ali. O zelo. E quando o elo afrouxa a gente não sabe o que fazer. Quando o cavalo escapa. Quando o cavalo escapa. A crina do cavalo. Ao vento.

Eu acho bonito que você ande distante disso tudo. Tudo o que todo mundo diz. Falar de filósofos em nada se difere de falar da festa de sábado à noite: é tudo verborragia. Tudo excesso. Ela conta que, lá na festa – maravilhosa festa -, foi muito mais amada do que todas as outras. Fútil? Não. Simplesmente ela e seus possíveis. Simplesmente ela e seu espelho. Simplesmente ela e seus filósofos e seus livros e sua maquiagem e seu vestido azul. Tudo tão pequeno e doce: tudo tão bonito pra mastigar e sentir – néctar. A vida tem néctar. A menina no balanço, a mulher na festa, você tão distante de tudo isso, tão longe daqui. Ou sou eu? Sou eu que me distancio aos poucos, presa à parede branca do hospital ou da casa, acostumada a achar que violência é isso: esse desejo-cavalo que vem e me faz. Aos coices.

A mulher na festa. Era eu. Anos atrás, desfilosofando a vida.

Amantes das palavras: nós. As palavras somos nós. Amantes de nós.

Despeço-me desfilosofando (consigo?). Trêmula diante do espelho, caçando migalhas de amor. Vi uma ali. Ali. Bem ali.

Voou.

 

Imagem: Toni Frissell - 1947

7 pessoas dançando

  • Beta disse:

    pungente, Carla. suas cartas concebem confissões que viram espelhos também para quem lê. :)

  • Thomas G. Marasco disse:

    Despergunta para a menina do balanço: bom saber que a mulher na festa era você. Hoje multiplicada, multifacetada. Em homens e mulheres. Com o verbo sempre pronto a deslizar sobre o fio esticado. Sem medo de cair. É a vida. É você.

    Uma noite dessas fui a um Baile de Máscaras, e na porta uma mulher mascarada me pediu uma senha. Estranhei um pouco, ela deveria me conhecer mesmo com a máscara, mas respondi: 189174201121629. Ela pesquisou no Google e me autorizou a entrada.

    Quando entrei a festa estava apenas começando.

    Thomas G. Marasco

  • hipólita disse:

    voou e pousou:

    resposta pra vc!

  • Thomas G. Marasco disse:

    Concordo com a Hipólita. Com você. Com Rimbaud. O que importa é escrever. O resto é literatura.

  • ando esquecendo também – há muito esqueci que o amor aperta. mas vc trás de volta, outra vez, diante de, muita coisa, obrigada.

  • Mary Pereira disse:

    Essas palavras…
    É de quando, nesse mundo sem vento, a vida insiste em soprar, sorrateira.
    Foi um sopro para mim, agora. E voou.

    suas palavras me deram um tapa tão forte. ..
    uma rasteira certeira,
    mas também um colo quando caí.

  • hipólita disse:

    querida, saudade de outra carta…
    precisando de uma resposta pra animar, depois de dias chuvosos.

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