quarta-feira
A casa do pai, o colo do pai. Ah, Lily, você está onde eu gostaria de estar. Internada, refugiada. Mas o pai está em uma longa viagem – manda fotos e saudades, pede que eu não me esqueça dos assuntos pendentes. O pai. O Pai. Meu Senhor e meu Deus! Meu Amor. Meu Amigo. Coisas que me amaciam e me protegem das manhãs sangrentas – essas em que desejo gritar. O Moço Amado não entende. Ou faz que não. Eu invento de xingar coisas bonitas, coisas feias, gritar meu mundo: puta que pariu, que porra é essa? Essa coisa gigante que me transforma em lágrimas, que me derrete inteira diante de você. Acho que é amor. Amor e um pouco de doença: a minha doença de calar as dores e esconder as facas que rasgam minha pele – as facas dos outros. A minha dor de perdoar o mundo e dizer a coisa certa. Sempre. Sempre, até que! Até que você aparece: linda. E diz que procura beleza e doçura em algum verde em mim. E eu, que nada de doce tenho a oferecer hoje, faço amargos em você com minhas futilidades: minhas lágrimas do dinheiro que se vai: minhas angústias que se perdem na voz de alguém que é tão egoísta quanto eu, mas discursa feito a Madre-dos-pobres-loucos-desvalidos. A santa. Eu repudio a santa-sem-sangue. Faço meu altar-inferno e convido os anjos: você. Meu pai. O Espírito Santo. E aquelas fotos bonitas que uma moça um dia mostrou. A moça dos pés descalços, sem discurso, sem deus, sem voz. A moça nua inteira – mãe dos loucos, também louca. Ela. Em busca dela, eu sigo. Descalça sozinha desitratada. E levo as mãos de Lírio comigo (as suas, Lily!) – suaves feito a asa de uma borboleta-flor. Suas mãos pequenas. Seus ódios pequenos, que em tanto se assemelham aos meus. Suas preciosidades todas, seus arranjos, sua voz. Busco você – na sua gripe debilitante – e grito, sem piedade:
“Hoje o dia tá um cu!”
(Rogai por nós, pecadores, e perdoai os ódios que nascem no frio da manhã que se espalha em nós! Nossas ofensas. E dívidas! Oh, Senhora, Mãe de Mim!)
Amor, Hipólita, amor: pela sua voz que cavalga ao vento, sua crina, seus gritos-meus!
Imagem: O Grito - Edward Munch






existe que a vida só se apresenta amarga…
Tá lá, resposta espontânea!
deixei pra você uma resposta, lá, no tempo.