jun 29th
terça-feira
hospitalsaopedro 1024x768 Carta   que morde!

Lily,

Aconteceu assim: a mãe estava doente, muito doente. A menina angustiada pés descalços e sabia jogar futebol na rua. Mas não queria jogar mais: queria olhar a mãe. Queria fazer a mãe melhorar. Queria fazer milagre: pediu a deus para ser dona de um milagre bonito que fizesse a doente se erguer e sair correndo louca pelos corredores cheios daquele hospital. Queria. Queria tanto que, na visita, mordeu a mãe. Mordeu furiosa, miúda, leoa. Mordeu de raiva e de amor, implorando que a mãe não morresse. Implorando dentes milagres e mordida santa. Implorando e inventando promessas impossíveis. Implorando de dor. Mas mordeu tão forte e dolorido que foi proibida de fazer visitas. Agressiva, estranha, brava demais. Criança má. Tão malvada que gritava. Gritou furiosa triste até o dia em que a mãe morreu. Então, calou-se; a menina: aquele silêncio que preenchia os arredores. Tão sozinha que passou a ter medo de deus – o traidor. Tão irritada, sozinha, muda, menina. Tão menina que chutava bolas de meia. E nunca mais um gol a alegrou. Tão divina, tão milagre, tão amorosa que mordia. Ninguém entendeu. Nem eu.

Aconteceu assim. Eu queria lhe contar isso porque sei que você se enternece com histórias de miúdos e miúdas. Sempre esses pedacinhos de história que nos chegam quebrados. As histórias quebradas que contam a grande história do mundo – aquela que a gente inventa; aquela que não é, a não ser pelo fato de acreditarmos nela. A criança e seu silêncio. A criança calada. A criança  – o tempo inteiro e insistentemente – falada. Por aquelas vozes que acreditam na experiência como imperativo e em um tempo que evolui saberes. Benditos os inexperientes, porque herdarão as estrelas há muito apagadas – mas que ainda cintilam de existência intensa.

Finalizo ainda Polímnia, porque ainda quero este nome.

*

Imagem: Hospital São Pedro - Porto Alegre (RS)

8 pessoas dançando

  • Daise disse:

    Eu me enterneço. :)

    Porém, prefiro não o silêncio, mas a eloquência infantil. ;)

    • carlajaia disse:

      palavras lançadas livres (a eloquência), tão potentes como alguns silêncios – aqueles que nascem como resistência a uma insistência por dizeres e confissões.

  • natacha disse:

    eu senti vontade de chorar…

    me lembra um pouco a história da clarice lispector, que queria salvar a mãe da doença contando histórias…

    pelo que se vê, não se salva vidas com mordidas e histórias. eu disse: pelo que se vê.

    minha vida é diariamente salva por histórias, recortes como este, fragmentos. e não é numa coisinha minúscula chamada DNA que se encontra, “quimicamente” ou seja lá o que for, a história do mundo?

    • carlajaia disse:

      mordidas e histórias, se não fazem alguém deixar de morrer, podem salvar as vidas de outros modos. não esta vida ou aquela, mas vida. alguma, sem nome.

      a história do mundo em coisas miúdas: a história do mundo aí. linda vc!

  • Morde-se por amor, morde-se de ódio, morde-se…
    Quando o silêncio vem, e os sentimentos também, os dentes rangem, a língua estremece, o maxilar endurece, e morde-se. Assim como a vida, a morte também morde.

  • Lily Hipólita disse:

    Mais uma vez me arrebatas!

    me senti mordida, mordendo, desejando vida – esta mesma que brota como flor no asfalto duro da gente, do mundo.

    Sabe, Polímnia, vc é uma das poucas coisas que das quais eu anseio, ao escrever-te uma carta fico ansiosa para receber sua outra carta-diálogo e é uma ansiedade gostosa, de vida.

    Obrigada por compartilhar esta história/lembrança/passagem.
    Adoro suas histórias sempre tão carregadas de brilho!

    até!

  • Theo disse:

    O tema me faz recordar algumas das ‘estórias’ de Guimarães Rosa que mais gosto: ‘Campo Geral’, ‘A Menina de Lá’ e ‘Os Cimos’. Aliás, mesmo quando não fala de crianças (e quando fala consegue ser insuperável, como em ‘Campo Geral’), algo que me assobra nele é sua capacidade de fazer personagens simples se defrontarem com situações complexas, inexplicáveis; com experiências que estão para além da capacidade do dizer.

    E esta sua carta (gosto imenso da sua literatura feita por meio de missivas) também tangencia experiência além das possibilidades da palavra: por isso, morder para implorar o milagre, para emular o pedido ao sagrado, para provocar fisicamente a materialização da esperança. E, por fim, a criança fica com seu silêncio — esse campo fecundado de sentidos possíveis. “Benditos [ou bem-aventurados] os inexperientes, porque herdarão as estrelas há muito apagadas!”

  • cf disse:

    Aquela que mordeu,
    antes foi mordida.
    Não pela experiência infame
    ou pela evolução autoritária.
    Mas pelo amor.
    por ele…. justo ele.
    Amor maltratado de medo e abandono
    pode petrificar alegria em forma de gol.
    Pode deixar marca funda e severa.
    Pode adoecer ao invés de salvar.
    Histórias carregadas dele,
    evitam da gente andar alheio
    pedindo sossego e enrijecendo.
    Ele, mordido ou não,
    amansa dureza implacável
    e abre enigma ao coração.
    Se fragilidade surgir da aurora
    então começará novo dia.

    E aos segredos que desconhecemos,
    prestemos homenagem.

    Assim poderemos estar mais gratos
    pelos ensinamentos
    dos bem-aventurados inexperientes.

    Benditos.

    abç.

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