terça-feira
Lily,
Aconteceu assim: a mãe estava doente, muito doente. A menina angustiada pés descalços e sabia jogar futebol na rua. Mas não queria jogar mais: queria olhar a mãe. Queria fazer a mãe melhorar. Queria fazer milagre: pediu a deus para ser dona de um milagre bonito que fizesse a doente se erguer e sair correndo louca pelos corredores cheios daquele hospital. Queria. Queria tanto que, na visita, mordeu a mãe. Mordeu furiosa, miúda, leoa. Mordeu de raiva e de amor, implorando que a mãe não morresse. Implorando dentes milagres e mordida santa. Implorando e inventando promessas impossíveis. Implorando de dor. Mas mordeu tão forte e dolorido que foi proibida de fazer visitas. Agressiva, estranha, brava demais. Criança má. Tão malvada que gritava. Gritou furiosa triste até o dia em que a mãe morreu. Então, calou-se; a menina: aquele silêncio que preenchia os arredores. Tão sozinha que passou a ter medo de deus – o traidor. Tão irritada, sozinha, muda, menina. Tão menina que chutava bolas de meia. E nunca mais um gol a alegrou. Tão divina, tão milagre, tão amorosa que mordia. Ninguém entendeu. Nem eu.
Aconteceu assim. Eu queria lhe contar isso porque sei que você se enternece com histórias de miúdos e miúdas. Sempre esses pedacinhos de história que nos chegam quebrados. As histórias quebradas que contam a grande história do mundo – aquela que a gente inventa; aquela que não é, a não ser pelo fato de acreditarmos nela. A criança e seu silêncio. A criança calada. A criança – o tempo inteiro e insistentemente – falada. Por aquelas vozes que acreditam na experiência como imperativo e em um tempo que evolui saberes. Benditos os inexperientes, porque herdarão as estrelas há muito apagadas – mas que ainda cintilam de existência intensa.
Finalizo ainda Polímnia, porque ainda quero este nome.
*
Imagem: Hospital São Pedro - Porto Alegre (RS)






Eu me enterneço.
Porém, prefiro não o silêncio, mas a eloquência infantil.
palavras lançadas livres (a eloquência), tão potentes como alguns silêncios – aqueles que nascem como resistência a uma insistência por dizeres e confissões.
eu senti vontade de chorar…
me lembra um pouco a história da clarice lispector, que queria salvar a mãe da doença contando histórias…
pelo que se vê, não se salva vidas com mordidas e histórias. eu disse: pelo que se vê.
minha vida é diariamente salva por histórias, recortes como este, fragmentos. e não é numa coisinha minúscula chamada DNA que se encontra, “quimicamente” ou seja lá o que for, a história do mundo?
mordidas e histórias, se não fazem alguém deixar de morrer, podem salvar as vidas de outros modos. não esta vida ou aquela, mas vida. alguma, sem nome.
a história do mundo em coisas miúdas: a história do mundo aí. linda vc!
Morde-se por amor, morde-se de ódio, morde-se…
Quando o silêncio vem, e os sentimentos também, os dentes rangem, a língua estremece, o maxilar endurece, e morde-se. Assim como a vida, a morte também morde.
Mais uma vez me arrebatas!
me senti mordida, mordendo, desejando vida – esta mesma que brota como flor no asfalto duro da gente, do mundo.
Sabe, Polímnia, vc é uma das poucas coisas que das quais eu anseio, ao escrever-te uma carta fico ansiosa para receber sua outra carta-diálogo e é uma ansiedade gostosa, de vida.
Obrigada por compartilhar esta história/lembrança/passagem.
Adoro suas histórias sempre tão carregadas de brilho!
até!
O tema me faz recordar algumas das ‘estórias’ de Guimarães Rosa que mais gosto: ‘Campo Geral’, ‘A Menina de Lá’ e ‘Os Cimos’. Aliás, mesmo quando não fala de crianças (e quando fala consegue ser insuperável, como em ‘Campo Geral’), algo que me assobra nele é sua capacidade de fazer personagens simples se defrontarem com situações complexas, inexplicáveis; com experiências que estão para além da capacidade do dizer.
E esta sua carta (gosto imenso da sua literatura feita por meio de missivas) também tangencia experiência além das possibilidades da palavra: por isso, morder para implorar o milagre, para emular o pedido ao sagrado, para provocar fisicamente a materialização da esperança. E, por fim, a criança fica com seu silêncio — esse campo fecundado de sentidos possíveis. “Benditos [ou bem-aventurados] os inexperientes, porque herdarão as estrelas há muito apagadas!”
Aquela que mordeu,
antes foi mordida.
Não pela experiência infame
ou pela evolução autoritária.
Mas pelo amor.
por ele…. justo ele.
Amor maltratado de medo e abandono
pode petrificar alegria em forma de gol.
Pode deixar marca funda e severa.
Pode adoecer ao invés de salvar.
Histórias carregadas dele,
evitam da gente andar alheio
pedindo sossego e enrijecendo.
Ele, mordido ou não,
amansa dureza implacável
e abre enigma ao coração.
Se fragilidade surgir da aurora
então começará novo dia.
E aos segredos que desconhecemos,
prestemos homenagem.
Assim poderemos estar mais gratos
pelos ensinamentos
dos bem-aventurados inexperientes.
Benditos.
abç.