segunda-feira
UM BILHETE SOBRE A MESA
Flor de Lis me procurou esses dias
queria um afago
Dei a ela minha saudade rasgada: pedaços coloridos de amor
***
Deixo bilhetes para mim, espalhados por toda a casa.
Até debaixo do tapete.
É que minha memória anda curta.
Tenho hoje uma memoriazinha de nada, Flor de Lis. E a culpa é toda sua.
Toda, toda, toda: tão inteiramente sua. Você me apagou: você me olhou e não viu.
Não viu a moça que escondia o sexo, o desejo, a nudez vermelha e raivosa – a moça que escondia a fúria.
Era uma coisinha qualquer, aquela moça – mas fazia estragos.
Sim, Flor de Lis: era uma viborazinha disfarçada de anjo, a santa.
A virgem discreta de sapatos brancos. Mal pisava.
Venenosa, contava verdades à minha boa memória.
Dizia: “és, sempre foste, sempre serás”.
Fazia carinho nas minhas lembranças mais ternas: sussurrava doçuras enquanto segurava meu tornozelo.
Mal pisava.
E, ainda assim, acreditava piamente nas raízes.
Fincava-me no chão de um antigamente que eu nem sei se existiu.
Ah, Flor de Lis, minha memória falha.
Não sei agora se a moça era ela ou era eu.
Esqueço-me facilmente do rosto – só tenho certeza de que era bonita.
Tão bonita que nem acreditava. Tão suave que matava. E tinha medo dos passarinhos.
Hoje, minha amiga, eu espero que você entenda:
não tenho sentido, vontade ou forma.
Sou essa desmemoriada que você criou.
Essa, que em você se reinventa: como se Flor de Lis fosse parte de mim.
Como se as gavetas abertas fossem as culpadas:
a papelada voou. Eram agora múltiplas asinhas murchas varridas pelo céu.
Perdi. A poesia que guardei.
De que se tratava?
Não me lembro. Acho que nem era tão boa assim.
Boa é você, Flor de Lis. Mas eu quero minha memória de volta.
Uma gota de seu néctar, por favor…
Imagem: Tears (Man Ray)





