jun 20th
segunda-feira

ManRay Tears 19301 Carta   Pra lembrar

UM BILHETE SOBRE A MESA

Flor de Lis me procurou esses dias

queria um afago

Dei a ela minha saudade rasgada: pedaços coloridos de amor

***

Deixo bilhetes para mim, espalhados por toda a casa.

Até debaixo do tapete.

É que minha memória anda curta.

Tenho hoje uma memoriazinha de nada, Flor de Lis. E a culpa é toda sua.

Toda, toda, toda: tão inteiramente sua. Você me apagou: você me olhou e não viu.

Não viu a moça que escondia o sexo, o desejo, a nudez vermelha e raivosa – a moça que escondia a fúria.

Era uma coisinha qualquer, aquela moça – mas fazia estragos.

Sim, Flor de Lis: era uma viborazinha disfarçada de anjo, a santa.

A virgem discreta de sapatos brancos. Mal pisava.

Venenosa, contava verdades à minha boa memória.

Dizia: “és, sempre foste, sempre serás”.

Fazia carinho nas minhas lembranças mais ternas: sussurrava doçuras enquanto segurava meu tornozelo.

Mal pisava.

E, ainda assim, acreditava piamente nas raízes.

Fincava-me no chão de um antigamente que eu nem sei se existiu.

Ah, Flor de Lis, minha memória falha.

Não sei agora se a moça era ela ou era eu.

Esqueço-me facilmente do rosto – só tenho certeza de que era bonita.

Tão bonita que nem acreditava. Tão suave que matava. E tinha medo dos passarinhos.

Hoje, minha amiga, eu espero que você entenda:

não tenho sentido, vontade ou forma.

Sou essa desmemoriada que você criou.

Essa, que em você se reinventa: como se Flor de Lis fosse parte de mim.

Como se as gavetas abertas fossem as culpadas:

a papelada voou. Eram agora múltiplas asinhas murchas varridas pelo céu.

Perdi. A poesia que guardei.

De que se tratava?

Não me lembro. Acho que nem era tão boa assim.

Boa é você, Flor de Lis. Mas eu quero minha memória de volta.

Uma gota de seu néctar, por favor…

Imagem: Tears (Man Ray)

Dance também