jul 15th
quinta-feira

vitoriaregia 300x199 Carta   o crepitar da pele

Lírio é princesa na torre. Lily é suave. Minha musa-flor, vitória-régia, não sei se é culpa sua, mas ando com vontade de ternuras. Ando excessivamente ansiosa por fazer ternuras. Mais do que receber, ofertar: entregar flores à menina-flor, fazer carícias de vento nos cabelos do menino sozinho, dizer amores ao pai – amores sem palavras. Padeço de amores sem palavras, Lily. Padeço assim tão aflita que fico pensando que eles não sabem. Desconhecem esse amor-abismo que me torna impossível: eu não me posso. Não me vejo. Não entendo. Padeço também da falta do ato: meu amor mudo e estático é inteiro aqui – egoísta, Lily. Hoje, tudo tão meu. E você teve suas coisas roubadas e percebe vitórias-régias no asfalto e permite que seus poros se abram orvalhados para a secura do mundo. Você, que umedece os entornos: musa da terra mais líquida, lama, amada, amante. O meu asfalto que sangra e o seu que floresce – tal e qual o de um certo poeta, mas não o mesmo. Nossos asfaltos rompidos: a terra não é mais a mesma e não haveria de ser. Não há princípio: o antes não determina a delicada linha que inventa os traçados do hoje. A antiguidade da terra nada mais faz que murmurar mistérios. Vivemos agora os lençóis d’água-sangue e os aromas florais e esse ruído acostumado do coração que salta – sempre, sempre, sempre o mesmo, como se nunca fosse deixar de ser. Aquele coração, as mãos, a minha palavra, a raiva, o surto, o surdo: eu, surda a tudo. Não escutei o tempo que passa. Nem o estalido quebra-folhas das rugas: você já as ouviu? Nascem crepitando, crescem no fogo suave das histórias que ele conta. O passado. Você sabe: quando se tem passado, é porque uma ruga já nasceu. Queimando vitoriosa a caminho do infinito. Uma memória. As donas do mundo são elas, essas poeiras. Eu sou saudade.

(e você, quando vem?)

Com ternura,

Polímnia (dê-me o nome de um tempo qualquer, pode ser?)

Imagem: Flor da vitória régia

5 pessoas dançando

  • Jésio disse:

    É que descobri há poucos que os carinhos dos amigos os ventos trazem sem soprar. Não é de ser incrível, mas nem precisa ser… é uma questão de acontecer, e isso perpassa qualquer estado, qualquer coisa. São esses carinhos que nos carregam, antes que nós acreditemos que os carregamos. Bjus.

  • Deborah disse:

    Quanto amor e quanta sutileza, lhe daria um abraço para agradecer esta beleza :)

  • E todo tempo seria pouco para apreciar tudo que vem de ti!
    Minha querida, obrigada por essa carta. Essa carta-afago. Recebo ela como quem recebe uma sempre-viva (flor que mesmo depois de colhida se mantem por 50 anos).
    Gratidão é uma boa palavra, mas é mais do que gratidão o que sinto quando leio o que vc, tão delicade e precisamente escreve.
    Sabe que te gosto de um tanto que seria pouco ainda se tentasse mesurar.
    Te gosto e te quero.
    Volto logo e logo nos veremos.
    Ah, assim que tiver sua resposta, encontrrarei seu nome-tempo.

    um grande beijo, afago, ternura,

    Lily Hipólita

  • E todo tempo seria pouco para apreciar tudo que vem de ti!
    Minha querida, obrigada por essa carta. Essa carta-afago. Recebo ela como quem recebe uma sempre-viva (flor que mesmo depois de colhida se mantem por 50 anos).
    Gratidão é uma boa palavra, mas é mais do que gratidão o que sinto quando leio o que vc, tão delicade e precisamente escreve.
    Sabe que te gosto de um tanto que seria pouco ainda se tentasse mensurar.
    Te gosto e te quero.
    Volto logo e logo nos veremos.
    Ah, assim que tiver sua resposta, encontrrarei seu nome-tempo.

    um grande beijo, afago, ternura,

    Lily Hipólita

  • Beta disse:

    “Queimando vitoriosa a caminho do infinito.”
    Poderosa passagem textual que serve a beleza do seu texto e ao primado da escrita, a quem a ela se dedica com tal urgência, tal poder.

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