domingo
Eu sei que o amor deve abrir caminho – e cada caminho que ele abre se assemelha a uma perda. Tudo por causa dessa mania de achar que amor é fechado. Mas eu ganhei: enquanto bordava os mistérios de um casamento que um dia virá, ganhei você. Você, que já deve saber que logo desejarei conhecer os seus nomes. Todos. Todos aqueles que você quiser oferecer neste miúdo altar que construí narcísica
Tenho o costume de me fazer Deusa e sei que não sou a única. Alguém aí, por exemplo, endeusa-se tão simples que quase duvidamos (já falei que sua crina ainda balança em meus ventos?). E eu sou moça correta do tipo que até deus duvida. E ele está certo em duvidar. Só a Deusa acredita, porque é feita daquela poeira agridoce que muitos chamam de erro. Ela desliza sexo e velocidade e uma roda aflita que faz o tempo rugir: e ela é mulher – decidiu ser mulher desde o dia que inventaram que isso era o erro, a falta, o furo. Quis subverter a ordem dura dos homens benquistos e se fez fêmea. E disse que não precisávamos lançar-lhe louvores nem nos fazermos resignadas. Ressignificou-nos como as nunca-mais-mártires e nós passamos a desejar a alegria, passamos a ser a alegria, passamos à alegria.
Não sei bem como você me adivinha assim. Ou, antes, você me inventa: e eu, então, faço o seu teatro como se fosse nosso. Como se eu me tornasse. Torno-me: o encanto dessas cartas é o fato de nos tornamos. Perdemo-nos em nossos entornos e eu, que insisto em pessoalizar tudo, perco-me nos uivos de ninguém.
Quanto a você que, entre-flores, vem nos invadir: o que deseja? Essa chegada suave, macia, proibida: é mar que rompe a cerca que nunca deveria ter estado ali. Quebrou. E eu sinto que doeu como se o vento ruísse: o vento que antes era um castelo e que inventava masmorras e que se fazia sólido como vento nenhum deveria ser. Eu já estive presa naquelas masmorras e costumava afrontá-las em suas pretensões de ventar: “vento de verdade dança com pólen e faz amor com as flores!” Do mar, sabe-se que ele invade. O segredo das coisas leves é que elas se destinam ao perigo. Quem dança com pólen sabe disso: nunca é tão simples. E é muita responsabilidade fecundar as flores.
Agora vou dizer a vocês que acho a dúvida uma coisa bastante cansativa – embora ela sempre me tome e me paralise. Saber que nada se sabe, de que serve? Sabemos de tudo; sabemos tão imensamente de tudo desde que nascemos. Sabemos que as coisas nascem e que há partes do corpo que não doem. Temos plena certeza de que a pele dói – e dobra. E de que as dobras no corpo são os delírios da Deusa.
(Foram vocês que me contaram, não se lembram?)
Assino Polímnia até que o nome se canse de ser.
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por tanto tornar entorno, torneio a voltagem desta troca: qual deusa pagã que dança pelada na chuva!
rodopia com os pés no céu.
e nós, nós já voamos tanto, mas sempre queremos um novo norte, mesmo que já percrustando seus rumos e entremeios: tais dúvidas certas são tão chatas quanto as certezas duvidosas.
E ainda caminhamos no quase do quando.
saudade mesmo da aurora nossa de cada hora.
hoje me sinto apaixonada pela aurora.
sabe que a cada dia invento uma paixão diferente?
paixão de letra, paixão de palavra, paixão de música, de filme, de livro.
depois passa, como tudo ou quase.
me invente tb um nome, até que ele se canse de ser.
e por ora te deixo com Polímnia, visto quer ainda é moça.
beijo grande,
sempre querida!
Sempre bom passar aqui!
Ah um nome.
E a lá deusas precisam deles? Precisam. Até certo ponto.
Ponto que inscreve vento, nos entornos de moças, descobrem flores.
Se, contudo, inventamos paixão,
é porque estas são sempre duvidosas,
digo,
dadivosas!!!
você sempre me deixa sem fôlego… uau.