ago 29th
domingo

capela sistina detalhe Carta   des culpas

Houve um tempo. Aquele tempo, Lily. Em que eu romantizava as culpas. As dores. Romatizava as chicotadas que levaria e as minhas escravidões. Só porque jamais fui realmente escrava – a não ser quando me punha em carne viva naquela infinita trama de meus sonhos. Sonhos obscuros que a noite devorava inteiros. E eu acordava aflita, morta, às vezes divina. Divina como pareciam ser os deuses: impiedosa. De ser incapaz de amar qualquer coisa que fosse. E eram apenas sonhos, Lily. Era como se eu não me desse conta de que é premente resistir. Insistir. Saber olhar para as coisas com aquela força que só a alegria é capaz de inventar. E temos que ter cuidado ao falar da alegria: podemos confundi-la com o riso qualquer. Aquele qualquer. De ter prazer qualquer e o tempo todo. E não saber inventar serenidades.

Então, era alegria ou escravidão. E também a alegria era escravidão: era mania de culpa. Mania de cristandade absoluta, éramos eu e meu véu – aquele véu que a dama usa na igreja. Dama penitente. E Deus sorria. Deus e Deusa sorriam porque eram coisa só e brincavam de alegria. Gostavam de poesia. Queriam que soubéssemos os mistérios do amor, que é entrega alegre. E eu não aprendia, Lily. Eu só aprendia aqueles primeiros passos de penitência e aquelas correntes nos meus braços. Que loucura, minha Deusa. Que loucura, moça das asas. Borboleta-lírio, Lily, crina-ao-vento: você, que é nome da natureza em movimento, do balançar das águas e do suave baile da terra. Do pisar na lama e dos tremores. Você, tão grande: e cresce, e cresce. E não é porque ele cresce aí - o menino que ouvirá suas melodias. É porque você cresce. Só por isso. Ele vai saber disso tão logo abrir os olhos pela primeira vez. E fizer aquela cara de filho – aquela cara que você vai amar tanto, tanto. O seu menino.

Não entendo o que escrevo hoje, minha amada. Você me deu um nome maior do que eu: nome de florestas. Eu, que conheço asfaltos e penitências, olho agora para tudo o que já foi escravo de verdade. Tudo o que já rompeu correntes com a sutileza invisível dos murmurantes. Tudo aquilo que já matei com meu desolhar. Desolar. Desovar. A vida é tão sutil, Lily. E eu não peço perdão. Perdão é pouco. Prefiro, devagar e no tempo que me cabe, entregar minha alma. Desfaço-a nos pedacinhos que já não me cabem. Não sou generosa: é que agora sei que ela não me pertence. Ela é nossa, Lily. Deles também. Delas. Você sabe disso. Você, que nasce.

Ternuras, pernas livres e um afago,

Diana

2 pessoas dançando

  • Carlos Carrion disse:

    Lily – Lilith e você sabem que essas culpas e as desculpas que se pedem ao Deus barbudo, masculino, guerreiro, Javé dos Judeuss, são criações nossas> Nós fabricamos a forma desse Deus, desse pai, que castiga porque (talvez) precisássemos disso. Aliás, Lilith, você também foi criada…

  • alguém que precisa ser inventada, se inventar disse:

    Diana, Polímnia,

    aqui: Hipólita, Lily…

    nomes e palavras que vão compondo estradas, trilhas por entre nossas paisagens, paisagens do mundo.
    do mundo, do mundo…
    que inventamos, inventamos, inventamos…
    inventadas…

    o amor.

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