domingo
Ele me olhou. Aqueles olhos negros fundos e sempre um pouco úmidos. Havia sido tomado pela loucura e pela bebida. Pertencia aos médicos e a nós: pertencia às nossas paredes que enquadravam os anjos, os demônios e todos aqueles que cortam estradas. Ele me olhou. Disse assim: “Moça assim, que nem você, tem que tomar cuidado quando pede carona. Cuidado com caminhoneiros. Conheço muitos!” Ele havia sido o chofer de um caminhão enorme. Dono das estradas, carregava nas costas do carro uma dedicatória à mãe ou uma piada sobre a mulher. A mulher. Deixara-a muitas vezes, nas infinitas esperas: a primeira noiva; a jovem esposa; a moça cansada; a mãe de um, dois e depois três filhos – todos homens -; aquela senhora severa e macia na meia-idade do amor. Deixara-a sempre ali, no portão, dizendo um amor sem palavras. Uma saudade. Conta que teve outras – um amor a cada leva. Mas era sempre ela. Sempre voltava para ela – sempre num silêncio de que são feitas as paixões que não pedem palavras: o café bem quente às cinco e meia da manhã e o casamento do primeiro filho. Sempre voltava para ela sem notar que aquela boa aguardente comprada em um posto em Manaus o carregava aos poucos, bem aos poucos, tonto nos perigos da estrada. Tonto no cansaço e nas vontades de quem manda; tonto na solidão, tonto, tonto, tonto. Tão tonto que mal notou quando ela – a mesma, de sempre, pra sempre – pediu que não voltasse mais. Que levasse embora suas farsas, sua aguardente e todos os perigos de sua estrada torta. Então ele morreu. Morreram aqueles olhos negros fundos agora para sempre úmidos. Morreram as mãos de chofer, a estrada e suas curvas, morreu seu amor pelas curvas: todas. Restou a aguardente amada e amante, a aguardente que o trouxe para cá. Restou o delírio de um ciúme fundo, tão fundo, que o amanheceu numa praça qualquer: “a minha casa agora é esta”. E ele veio – carregado! – para nós e nossas teias. Ele veio e nós nem quisemos saber. Dos perigos da estrada e do amor. Não quisemos saber das insistências dela – a mesma, de sempre, pra sempre – em vê-lo: buscá-lo: acariciá-lo: “é um bom homem”! Não quisemos saber de seus detalhes. De seus caminhos. Escrevemos: delírio. Esquizofrenia. Transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool. Dissemos que era sedutor e teimoso. Fraco na vontade e na vida. E que não gostava de trabalhar. Dissemos assim: preguiça. E, novamente, delírio. Outra vez sedução e teimosia. Esquizofrenia e alcoolismo. Vadiagem. Ele nos pertencia agora. Desde que seus olhos morreram. Ou, antes – agora sei -, desde que nós matamos seus olhos. Não ela, nem a aguardente: nós.
“Moça assim, que nem você, tem que tomar cuidado quando pede carona. Cuidado com caminhoneiros. Conheço muitos!” Eu não tive cuidado. Entreguei meus ouvidos à sedução de quem comanda estradas. Peguei carona em sua cela. Ouvi sua história: devia isso a ele. Eu era sua carcereira. Uma dos muitos.
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Adorei o ritmo do texto, a forma como você vai contando a vida desse homem que não é mais nada, mas acho que ainda tenta ser alguma coisa por isso o aviso. Fica vísivel um medo em sua superficie, uma espécie de grito. Ninguém quer saber, mas ele sabe… rs
bacio
E que ele encontre o amor capaz de lhe trazer de volta… Acho que ele já encontrou…
Uma história triste, mas tão bem conduzida, que produz encantamento e vontade de ser amor capaz de trazer de volta. Desse jeito, Carla!
Amo tudo aqui. E você? Incrível.
Beijos