mar 18th
sexta-feira

atrasdaporta8aw Atrás da porta

A minha vida eu deixo aí, atrás da porta – que é pra espantar visita.

Toda incompletude do mundo é vida espalhada em cantos por aí, atrás de todas as portas, fazendo surpresa aos visitantes desavisados. Toda incompletude do mundo é fantasma: faz o sono desacontecer.  E então a gente pensa que amanhã.

Que amanhã.

Que amanhã.

E amanhã não acontece.

Só ela fazia acontecer. E eu sei que ela sabia viver um pouco da fome de hoje e que conhecia mais do  que aquilo que o espelho podia contar. Eu sei que ela vivia de amor e morte e que bordava incertezas à meia luz. Eu sei que ela sabia fazer uma porção de coisas com aquele pouco e que não guardava num canto a vida, porque era premente fazer render – a vida era um fio. A vida, na pressa, não suporta a tola mania desses meus excessos vazios: esse tempo-demais que quase sufoca e arde, esse dia de amanhã que não chega para dizer a que veio, essa palavra que não nasce, não nasce, não nasce…

Essa palavra macia. A voz do homem que insiste em fazer as coisas certas, tão mais certas do que a vida é capaz. A voz de Santa Maria, Mãe de Deus – e vovó sempre falava dessa Maria, essa boa Maria que roga por nós-pecadores até a hora de nossa morte. Vovó acreditava que Maria não precisava rogar por mim. Eu era santa: tecia a maldade em segredo, fazia o desejo em silêncio e ansiava pelo dia em que mataria o tédio. Aprendi do meu jeito – mato o tédio colecionando histórias. Todas as que ouço são primorosas, especialmente as menores. As invisíveis. As histórias que as pessoas nos contam num canto. A voz baixinha da vida anotada em um prontuário psiquiátrico: então a moça corria nua por aí? Então o moço matou aquele que o enganou? Então a menina morreu cedo? A voz baixinha da vida: a gente escuta em silêncio e envelhece num susto. E as coisas antigas já eram. A gente agora sabe que teve gente que morreu ali, na injustiça, na dor, no peso da sentença eterna. A gente nunca mais julga. A gente passa a desconhecer a paz.

A minha vida eu deixo aí, atrás da porta – que é pra espantar visita. Tenho sempre medo de quem vem. E vontade.

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