out 19th
quarta-feira

gustav klimt danae Às duas

Sempre às duas, expunha-se nua e lúcida para todos eles. Todos os fantasmas e todos os anjos e aquele pequeno demônio triste que bailava fúnebre desde meia-noite. Sempre assim: revisitando as curvas macias do corpo tantas vezes revistado pelas polícias dos corpos e das penugens, pelos donos do mundo que diziam o nome da beleza e da maturidade e ensinavam a ela que ainda não era tempo de ser mulher. Sempre às duas, inventava-se dona de suas histórias mais delicadas e sabia que um dia cresceria. Um dia. Sabia que privacidade não era coisa pouca: era para poucos. E os poucos que dela gozavam acreditavam que o mundo dos outros deveria ter janelas abertas e portas escancaradas. O mundo dela: a menina do corpo do outro. Expondo-se nua às duas horas. Para todos os fantasmas e todos os anjos e para ele: o pequeno demônio triste que bailava louco desde meio-dia. O pequeno demônio que a acompanhava menino e lhe sujava os pés. O pequeno demônio que fazia com que ela desejasse as cores do arco-íris mágico que a tornaria menino ou, quem sabe, faria dela a dona do pote de ouro. A pequena fera do meio-dia: ela mostrando os dentes. Fincando-os na maçã e espremendo o gozo no travesseiro. Molhando todas as entradas e saídas, vãos e vielas, todas as curvas nascentes das quais ela se envergonharia mais tarde como se fosse mulher-contra-deus: a assassina. Virada do avesso, com seus pedaços machos e aquela ponta de desejo que mirava na professora da primeira série e depois no namorado da irmã. Mais tarde no rabo do vento e nas fincadas azuis da tempestade. E só depois em si mesma diante do espelho: mulher revisitando-se em eterna exposição a todos os fantasmas e anjos que colecionara durante anos. E o demônio. Pequeno. O mesmo. Que, no entanto, agora sorria macio de alegria de velhice. Só ele sabe que a gente goza melhor mais tarde, quando a vontade passou. Só ele sabe que passa.

 

Imagem: Danaë (Gustav Klimt)

1 pessoa dançando

  • wuldson disse:

    Magnífica expressão dos desejos de liberdade (de uma personagem que não conhece o seu significado) de alguém que até a privacidade, desde a infância, fora negada. Um emaranahdo de sensações e sentiemntos que explora as vontades e os interditos. Maravilhoso.

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