mar 22nd
terça-feira

 

jozefIsraels Aquela pedra

Quando a pedra do mundo me afogar.

O mar dos mortos.

Sabe, Maria, quando a porta bate fria em vendaval? Sabe aquele pavor de não sei o que? E sabe quando você vê as rugas da avó e pensa em como tudo aquilo lhe dava medo? A casa dela. A casa dela no meio de lugar qualquer e uma floresta logo adiante. E quando você era criança pensava que o Mal habitava aquela floresta – e acreditava que o Mal era de outro mundo. Quanta sorte a sua: achar que o Mal é apenas o além-vida, o inferno, o mundo fantasmagórico dos que já se foram. O mundo fantasmagórico da saudade. Quanta sorte a sua: aquela primeira saudade foi o seu único pavor na infância. O único. Quanta sorte, Maria. Quanta dor! A mãe da menina foi assassinada em frente ao portão. Eu conhecia a menina. E todos os medos possíveis, todos os fantasmas, todos os segredos: não era de outro mundo, afinal. Aquilo que arranca a vida é aqui: vive aqui: morre aqui: entranha-se infinito e secreto em nós. Aquilo que arranca a vida nasce em nós enquanto o mundo nos desenha – os traços de minha mão-destino, os traços de sua mão. Aquilo que corre pelas florestas escuras abocanhando os abandonados. Aquilo que treme na mão: a arma. O fogo na mão da criança. Aquele pavor, Maria. Nem você, nem eu sabíamos. Que não era a floresta, Maria. Não era a floresta com suas bruxas e suas casas de doces. Era o abandono – o pai e a mãe famintos, o buraco no estômago, os filhos espalhando na estrada migalhas de pão. Era a verdade mais verdade do mundo: não a bruxa, a mãe. Não os doces, a fome.

Se nós soubéssemos, Maria, já naquela época. Seríamos tão velhas hoje, tão. Mas a sua mãe segurou sua mão. A sua mãe não sentia aquela fome.

A pedra do mundo que afoga gente. Alguém morreu – alguém.

Ninguém viu, Maria. Solidão é isso.

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Imagem: Children Playing by the Seaside -
Jozef Israels 

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