terça-feira
Quando a pedra do mundo me afogar.
O mar dos mortos.
Sabe, Maria, quando a porta bate fria em vendaval? Sabe aquele pavor de não sei o que? E sabe quando você vê as rugas da avó e pensa em como tudo aquilo lhe dava medo? A casa dela. A casa dela no meio de lugar qualquer e uma floresta logo adiante. E quando você era criança pensava que o Mal habitava aquela floresta – e acreditava que o Mal era de outro mundo. Quanta sorte a sua: achar que o Mal é apenas o além-vida, o inferno, o mundo fantasmagórico dos que já se foram. O mundo fantasmagórico da saudade. Quanta sorte a sua: aquela primeira saudade foi o seu único pavor na infância. O único. Quanta sorte, Maria. Quanta dor! A mãe da menina foi assassinada em frente ao portão. Eu conhecia a menina. E todos os medos possíveis, todos os fantasmas, todos os segredos: não era de outro mundo, afinal. Aquilo que arranca a vida é aqui: vive aqui: morre aqui: entranha-se infinito e secreto em nós. Aquilo que arranca a vida nasce em nós enquanto o mundo nos desenha – os traços de minha mão-destino, os traços de sua mão. Aquilo que corre pelas florestas escuras abocanhando os abandonados. Aquilo que treme na mão: a arma. O fogo na mão da criança. Aquele pavor, Maria. Nem você, nem eu sabíamos. Que não era a floresta, Maria. Não era a floresta com suas bruxas e suas casas de doces. Era o abandono – o pai e a mãe famintos, o buraco no estômago, os filhos espalhando na estrada migalhas de pão. Era a verdade mais verdade do mundo: não a bruxa, a mãe. Não os doces, a fome.
Se nós soubéssemos, Maria, já naquela época. Seríamos tão velhas hoje, tão. Mas a sua mãe segurou sua mão. A sua mãe não sentia aquela fome.
A pedra do mundo que afoga gente. Alguém morreu – alguém.
Ninguém viu, Maria. Solidão é isso.
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Imagem: Children Playing by the Seaside - Jozef Israels






Carla,
Perfeita essa frase: “Aquilo que arranca a vida é aqui: vive aqui: morre aqui: entranha-se infinito e secreto em nós”.
Texto forte e lindo!
Beijos
solidão é isso, carla.
romério
Você me mata assim, de pouquinho, com essas sutilezas.
Simplesmente perfeito! Sublime!
Nossa… Você escreve muito bem mesmo! ^^
O monstro mora ao lado, ou até dentro.
Continuarei lendo seu blog! ^^
Um beijo.
Que privilégio é o pensar que os males estão da porta pra fora, na floresta.
“Aquilo que arranca a vida nasce em nós enquanto o mundo nos desenha – os traços de minha mão-destino, os traços de sua mão. ”
Lindo isso, moça.
Beijos.
Saudades dos seus textos, que rastreiam camadas insondáveis do sentir. Esse, uma pedrada, um abondono, um afogar, palavras às vísceras.
Bjo!