nov 23rd
quarta-feira

Lua50 Ais

 

Entorno-me nas frestas

- quente e úmida -

como se deus me pedisse

um “ai”.

 

Ai!

 

Dói-me a cabeça e alegra-me

aquela parte funda

do corpo:

estou parindo um pedaço de amor

ou de deus.

 

Ai!

 

Mamãe disse que me acordaria

mas amanheceu batido feito a solidão:

o menino descalço me pediu

colo

entorpecente

moeda

flor;

a menina roeu a roupa velha do rato de roma

como se fosse um rei

- eu vi que ela fumava as angústias

do filho que estava por nascer.

 

Ai!

 

Como se o mundo acabasse amanhã,

ela ergueu a mãozinha pequena e pediu

- nem olhei!

Foi a última vez que sorriu.

 

Ai!

 

Meu colchão arrebentou em estrelas

tal e qual o corpo dele quebrado

em sangue e melodia

- sem saudade.

Ele não tinha nome

- eu sim.

 

Ai!

 

Entorno-me nas frestas e sei

que cada dor tem o tamanho inverso

da voz de quem grita

a minha se espalha aguda

no colo de mãezinha boa

a deles

- enorme -

faz silêncio cativo

cortante feito zumbido de flor.

Imensa.

 

Ai!

 

Imagem: A Lua, Tarsila do Amaral

1 pessoa dançando

  • Carla, obrigada pela presença lá no corpestranho, aprecio as suas passadas por lá, e não se preocupe com palavras, há formas mais imediatas de interação e compreensão.

    essa coisa de parir o amor nos faz deuses.

    beijo.

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