quarta-feira
Entorno-me nas frestas
- quente e úmida -
como se deus me pedisse
um “ai”.
Ai!
Dói-me a cabeça e alegra-me
aquela parte funda
do corpo:
estou parindo um pedaço de amor
ou de deus.
Ai!
Mamãe disse que me acordaria
mas amanheceu batido feito a solidão:
o menino descalço me pediu
colo
entorpecente
moeda
flor;
a menina roeu a roupa velha do rato de roma
como se fosse um rei
- eu vi que ela fumava as angústias
do filho que estava por nascer.
Ai!
Como se o mundo acabasse amanhã,
ela ergueu a mãozinha pequena e pediu
- nem olhei!
Foi a última vez que sorriu.
Ai!
Meu colchão arrebentou em estrelas
tal e qual o corpo dele quebrado
em sangue e melodia
- sem saudade.
Ele não tinha nome
- eu sim.
Ai!
Entorno-me nas frestas e sei
que cada dor tem o tamanho inverso
da voz de quem grita
a minha se espalha aguda
no colo de mãezinha boa
a deles
- enorme -
faz silêncio cativo
cortante feito zumbido de flor.
Imensa.
Ai!
Imagem: A Lua, Tarsila do Amaral






Carla, obrigada pela presença lá no corpestranho, aprecio as suas passadas por lá, e não se preocupe com palavras, há formas mais imediatas de interação e compreensão.
essa coisa de parir o amor nos faz deuses.
beijo.