domingo
Inicio a trama suave de minha vida qualquer. Ponho diante de ti uma xícara de café e biscoitos de amanhecer, entrego-te um sorriso bom: “Lembra-te do dia, meu bem? O nosso dia?” Desembaraço macios meu cabelos úmidos e deixo nas pontas gotas de mel – para que molhes tua língua na doçura minha. Assim, bem assim: no caminho discreto da perfeição. Não faço barulho durante o sono manso do menino que sugou meio seio. Esqueço-me das rugas e das dores no corpo, esqueço-me de quando aquele ódio fundo roeu-me feito ratazana louca: esqueço-me de mim. E teço imaculada as vestes de uma santa: eu. Despejo na entrada flores e raspas de limão: penso que beijarás meus pés ao anoitecer. Convenço os vizinhos da importância da ocasião, faço um bolo e imito um colibri. Cubro-me de amores inventados. Disfarço-me princesa. Enfeito-me de borboletas recém-nascidas, lagarteio aos teus pés para que me pegues. E, assim, não mais que de repente, sou vazia, perfeita e já não sei falar. Foi-se o tempo da minha voz. Entende, amor, esse era o preço: quando jurei ser virgem,
tapei meus furos. E nunca mais vazei sereias e serpentes. Nunca mais.
Imagem: A Grande Guerra (René Magritte)






Muito bom. Atualizando minhas leituras por aqui. E porque se foi o tempo da voz, coloco-me em silêncio para que o corpo receba os gestos adentrados das palavras.Seus textos têm muito da oferta impossível do de si. Beijo!