jul 8th
quinta-feira

frida kahlo a quem (?)

Frida Kahlo - "A Cama Voadora"

Quero compartilhar com você um segredo: a terra sangra. Sangra tão dolorida e vermelha, tão bonita a terra. Eu não sabia disso até me contarem. Quem me contou foi ela, a viajante abandonada. Ela conhecia todos os mistérios que existem sob o asfalto e além das águas: os mistérios da terra. Pois ali está o asfalto: ali, duro asfalto para pisar seguro e para receber o peso de rodas e máquinas. Asfalto para a cidade. Correndo abaixo dele, o sangue da terra: aqueles lençóis rubros que fazem um balanço suave. Você consegue sentir? Balança aí, bem leve: sangue arterial do chão – e, enquanto pisamos firmes na concretude que nos protege, mal sabemos que caminhamos sobre as águas. Você: sente que o mundo dança sob os seus pés? Percebe o baile? Você, que também dança: e dança também a sua pele, fazendo essas dobras deliciosas que muitos costumam chamar de velhice.  Você amassa a testa até ficar parecendo uma uva passa. E se assusta com minha falta de sentido. Você me ama porque eu amo você. Imagina, então, que estou aí, ao seu lado, servindo-lhe um chá de hortelã. Depois nós tocamos nossas mãos e, de repente sem vestes, roçamos nossos corpos. E então eu pareço uma flor. Então você é pólen. E nasce um pássaro sem cor e nós morremos. Acabamos.

Ao fim, a história é sua. Você me inventa. Por algum motivo desconhecido, cria-me bonita de doer os olhos. E me faz mais longilínea do que o rio que há muito tempo passava perto de uma casa atrás da sua. Então você se aquece no aconchego das águas e escuta as sereias. Primeira voz que ouve, que surpresa: ela canta tal e qual uma criança, ou feito a velha esganiçada que morria sozinha. E você sempre pensou que sereias fossem as donas da melodia do mar. Mas eu gosto de como elas falham. Gosto de como gaguejam. Você nunca havia ouvido uma sereia gaguejar. Nunca havia escutado uma sereia.

Sabe as coisas feias? Gosto delas. Gosto de todas as dobras em você, todas as que você tenta disfarçar ou consertar. Pergunto agora se você é macho ou fêmea. Não que isso realmente importe. Mas ficaria mais fácil imaginar, não a sua reação à minha carta, mas a minha reação à sua leitura. E você deve ler de um jeito tão bonito que já deve estar recitando. Sua voz, que agora é firme. Que agora é doce. Que agora canta. Sua voz é tão feminina agora: você é a sereia. E você envelhece de propósito só porque sabe que é proibido: só porque exigem de nós  a juventude eterna.  Mas nós sabemos: sabemos agora que perdemos o medo quando bebemos daquela fonte – aquela dos lençóis d’água-escarlate que corre sob nossos tijolos. O pavor se esvai borboleteando longe. Somos, então, rugas e dobras, e nossos corpos contam histórias tão bonitas que as pessoas se assustam. Sabe as coisas bonitas? Gosto delas. Gosto de todas as dobras em você, todas as que você tenta disfarçar ou consertar.

É por sua causa que escrevo esta carta. Tenho muito medo de me sentir muito sozinha depois de libertá-la – eu tenho mania de prender minhas cartas. Mas já não é possível. Livre, a carta chega até você. Livres, essas palavras dançam. Livre, a terra pulsa e você está aí. Eu sem saber se você me quis – se você quer essas palavras. Sabe os mistérios? Gosto deles. Gosto de todas as dobras em você. Seu corpo é tão bonito e eu imagino seus olhos. Que me lêem. Assim espero: que leia e deseje. E depois, se não houver amor, que você me voe. Nessas asas que o vento inventa.

Despeço-me em asas, ternura e sangue, sem nome…

***

Inspiração:

Carta escrita para o Coletivo Eleve

4 pessoas dançando

  • Theo disse:


    (porque só o silêncio pode pressentir a altura de suas palavras — e meu maravilhamento diante delas.)

  • Beta disse:

    Que delírio bom! O dom sob as águas, escarlate ardente da terra esgarçando sentidos anciãos. Tudo o mais, um longo mergulho, canto fecundado das cores de frida, que doem. Ternura e sangue desvanecem sob meus pés, abrindo porões de almas assustadas, cheias de paixão, pela imensidão das íntimas marés. Aí, sonhos sem nome de histórias que acabam, você desconstrói o feio, a beleza infiltra radiante, virtude de palavras que sabem olhar pra dentro um mundo.

  • cf disse:

    Suas palavras – lençóis d’água-escarlate – deixam dobras saborosas feito uva passa. E sobre o asfalto, faz emergir a terra que sangra.

    Agradeço pelo seu dom de sereia: enfeitiçar com a poesia.

    Abç.

  • “Por seres tão inventivo
    E pareceres contínuo
    Tempo tempo tempo tempo
    És um dos deuses mais lindos
    Tempo tempo tempo tempo…”

    Oração Ao Tempo ( Caetano Veloso )

    E essa carta deu um nó na minha garganta !!

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