terça-feira
A história do seu corpo. A aflita história do seu corpo. A triste e magnífica história de um corpo aos pedaços. E você se transformando em estrelas.
Mas não, não; a vida é dura e o corpo tem a firmeza exata que o torna capaz de ferir e ser ferido. A firmeza exata para receber o aperto da crítica e, ainda assim, não desfalecer em murchezas. Mas nem sempre. Às vezes, ocorre de quebrar. Quebra tão fino e invisível que você pensa que foi na alma. Treme tão suave que você quase pensa que era prazer. Daí a sua mania de perdoar o imperdoável. E de se curvar assim bem baixinho para não machucar os frágeis olhos de seu algoz. Ele não suporta olhar para você. Você, insuportável, esconde-se. Tem mania de servir. Falta-lhe a ousadia de quem chora: você perdeu até as lágrimas. Caídas despedaçadas numa estrada qualquer, que ficou ali onde o tempo esconde respiros e assobios.
Range o tempo e marca o corpo. Você nem sabe que suas linhas são mapas e que suas dobras são infinitudes montanhosas e reentrâncias alegres: dentro de uma dobra sua existe um grito. E um dia ele vai se soltar fino feito um passarinho e voar, voar, voar até quebrar macio em ondas quaisquer. Tudo em você é qualquer – mas em mim também. Tudo tudo tudo é qualquer, mas a gente inventa formas bonitas e rituais protetores. Gosto deles, aliás, desses rituais. Estão, pelo menos, cheios de lágrimas. E contam histórias de um passado que cantava. Bem fina a melodia a perder de vista: o amor perdido e a vila devastada. Os donos do mundo pegaram você. E você se esqueceu de que o corpo é infinitável. O corpo é a alma: não tem data de nascimento nem espreita o fim – apenas segue amaciando-se em carícias e dores, lamentos e sabedorias, até o dia em que se torna terra. Não morre. A vida é para além de você, entende? Não é você quem viverá para sempre, é ela quem sempre existirá.
Imagem: O vestido da noite - Magritte






linhas que vão do corpo a alma, da alma ao corpo costurando a realidade nos olhos de quem lê.
beijos,
G
ave, carlinha.
romério
Ai… Uma pontada de empatia…
Adorei, sério. =]
o/
E porque o corpo é alma, lágrimas acorrem, com a mesma pressa da felicidade ao ler um texto assim. Palavras não mapeáveis, mas tão precisas e fundas que, como lâminas, fazem sangrar. Sangram belezas, quer dizer, memórias, histórias devoradas, um jeito brando dentro do intenso, suave tremor. É o murmúrio que o grito esconde, o vício da delicadeza, algoz maior. É preciso muito enxergar para perceber tais sutilezas. Ave! Lindeza de um tamanho, de tão fino corte que o corpo se vai aos pedaços transformado em estrelas.
Bjo!
Amei!
Sobretudo: “A vida é para além de você, entende? Não é você quem viverá para sempre, é ela quem sempre existirá.”
Bjs.
que imagem linda essa do Magritte.
esse mistério do corpo também me intriga, desse corpo estranho.
desse corpo que, sobretudo, persegue a mulher. do corpo banido, atópico.
gosto de mapear esse corpo imenso aqui.
beijo, querida.