Ais

Clarice

Vinte e sete anos

A ronda

jan 27th
sexta-feira
A sombra de Deus

A sombra de Deus me pegou – num susto – acelerando meus passos, vertendo-se em meu encalço: fazia medo da morte da noite do furo.   Medo dos cristais de fogo que nasciam de mim rompendo-me entranhas, ventre, precipício:   era como quebrar ao contrário – nascer. era como parir às avessas – o dentro [...]

jan 22nd
domingo
O nome da deusa

  E quando deus criou o verbo, que se fez intenso em minha carne, mal sabia ele, mal sabia a ele. Que hoje me submeto ao verbo como quem se entrega a um vício: a palavra me afunda a vida em seus múltiplos sentidos, em suas infinitas vontades. A palavra deseja dizer Homem e imediatamente [...]

jan 19th
quinta-feira
Carnaval

  Eu, que nasci em novembro, fadada ao peso da vida –   (dizem os astros: a fera ,veneno de escorpião, dizem os anjos: a besta ,a fome da noite em mim)   – peço aos deuses o direito de nascer mais uma vez.   Ofereço em sacrifício à fera, meus ossos do ofício   [...]

jan 14th
sábado
Nascida

  Do mesmo modo que a tua estrela cintilava firme feito um farol eterno no infinito do mundo a minha me engolia em fogo – eu no inferno: desabrochando em cinzas férteis e novos grãos.   Nasci sob o signo dos sonhos: atarefada demais nas ilusões ensimesmada aguada.   Nasci na fé infinita das crianças, [...]

jan 9th
segunda-feira
Mariazinha

Mariazinha, a pequena, tinha os olhos – negros e fundos – vidrados no amanhecer. Era, então, hora de dormir. Mas ela não conseguia, não sabia, não podia. Quem a visse poderia até pensar – não sem certa razão – que havia anos que ela não tirava um cochilo. Punha o café para passar, faltava pão [...]

jan 2nd
segunda-feira
Jorge e Marias

O fios da vida roídos pelos dentes fracos daquele rato verde: Maria dilacerou o delírio, pôs um fim àquela farsa e deu à luz Jorge, miúdo Jorge do mundo – que seria santo, amante ou pescador. Ou tudo junto. Ajudante de pedreiro,  mecânico, secretário, namorado, príncipe, doutor. Mas Maria era louca e todo mundo começou [...]

dez 19th
segunda-feira
Fuligem

Como se as pedras rezassem desde Outono – quando eu desfolhava quase-virgem -, terminei minha última carta. Aquela que se direcionava a ele – ou a ela, ou aos deuses. Então veio o delírio: e o delírio era uma flor aberta em pólen ou sangue e a minha fuligem era tudo o que eu tinha [...]

dez 12th
segunda-feira
Despertar

Certo como aquele roçar – fino e triste – das minhas folhas secas no seu telhado quebrado eu-árvore eu-vento eu-flor   Certo como um sonho, amor: esses de voar passarinhos e borboletear corações eu ainda acreditando no primeiro desabotoar apressado do meu vestido azul: era tudo água, meu bem. A água mais quente do mundo. [...]

dez 7th
quarta-feira
Talo da vida

Faz um ruído úmido lá onde a vida quebra seu talo de flor. Como os ossos remexidos das últimas meninas devoradas por lobos. Ou homens vorazes. A gente não sabe. A vó conta a história que pode e a história que pode nem sempre é a verdadeira. Há momentos em que é premente uma noite [...]

dez 4th
domingo
A trama

Inicio a trama suave de minha vida qualquer. Ponho diante de ti uma xícara de café e biscoitos de amanhecer, entrego-te um sorriso bom: “Lembra-te do dia, meu bem? O nosso dia?” Desembaraço macios meu cabelos úmidos e deixo nas pontas gotas de mel – para que molhes tua língua na doçura minha. Assim, bem [...]