Clarice

Vinte e sete anos

Carta – Dorme a serpente

ago 31st
sábado
Os homens que não amavam as mulheres

  Eles não amavam as mulheres. Nem as crianças que-  já nascidas – fumavam pedra e empunhavam canivetes. As que dormiam ao relento, as que furtavam seus bens – preciosos bens. Eles não amavam os homens que faziam votos de amor a outros homens. Nem as amantes que, encantadas, deitavam-se juntas em meio a borboletas. […]

mar 24th
domingo
Já te disse

  Já te disse, amor e, se não disse, sei que já cantei baixinho enquanto dormias: és minha paz e que se dane o evangelho e todos os orixás. Já te disse, amor, e digo mais uma vez meu corpo apavora diante do concreto e pede a maciez de nossos deslizamentos transpirantes – corpo a […]

mar 24th
domingo
Melancolia

Querida Rebeca, Melancolia é um aperto no fio. Aquele fio delicado que une a alma ao corpo. Melancolia é quando a gente não cabe mais na gente e quer se entregar ao infinito. Onde moram estrelas e poesias e todo beijo tem gosto de orgasmo. Melancolia é quando a gente passa o dia inteiro na […]

mar 3rd
domingo
Pêssego

O desejo de Adélia se esconde na saia. E nas dobras vivas de seu corpo macio. O desejo de Adélia se esconde no laço. Que lhe amarra a cintura, o cabelo, a garganta. Feito um nó dolorido, sobe-lhe o coração: agarra o pescoço e faz um aperto. O desejo de Adélia parece uma dor. Gargalha […]

mar 1st
sexta-feira
Abocanhante

  Quando a felicidade dá um grito no fundo claro de meu coração aflito – um lago, uma luz, um sopro: belezas que espocam ao luar. Faz meia-noite e já sou amanhã: a mesma que dançava feito princesa numa infância de promessas – descumpridas. Calei e amarguei o antes: fiz um futuro de pavor e […]

fev 17th
domingo
Minha pequenina

Como se me desfizesse em pétalas, grito. Mas não são pétalas. Não é poesia. É minha carne arranhando num mundo de lágrimas engolidas. Nem sei, minha irmã, nem sei. Só sei que preciso de você e do seu raio de luz que me alcança em qualquer espaço. Você, que é forte e organiza os fios […]

fev 4th
segunda-feira
Da morte

A morte não faz perguntas não faz não faz Passa suave e macia cruel violenta despersonaliza e deforma: faz voar um espírito – para aqueles que creem. A morte não faz perguntas não faz não faz não se importa, não se importa se ele era pai dos aflitos nas noites de frio e medo se […]

jan 14th
segunda-feira
Desejo

É que seu carinho é feito relva suave mato e flor Como a dureza da vida se desfazendo orgasmo e cores: nós dois sob o sol e nossos jeitos de cantar loucuras. e eu sei que você é bom porque bate em meu peito feito luz: você tem olhos de criança e braços de gladiador: pega-me […]

jan 6th
domingo
Contágio

Permitiu-se contagiar inteiramente – quase que insustentavelmente – pela dor que a outra sentia. A outra que carregava mais de trezentos anos de terra, verdade e sexo; saudades e afetos; antigos amores e a memória da mãe. A outra que era tão outra a ponto de poder se transmutar em muitas dela – a observadora […]

jan 4th
sexta-feira
Estojo de maquiagem

  Maria guardava saudades de Elena num pedaço da alma, nos bordados do lençol e no estojo de maquiagem. A sombra cor-de-rosa que a outra amava usar. Elena era tão bonita que às vezes doía em todas as partes do corpo de Maria. E lhe abria os poros de desejo e falta. Faltava Elena quando […]