Clarice

Vinte e sete anos

Carta – Dorme a serpente

ago 29th
sexta-feira
Maria

  O corpo era dócil, macio, suave. Maria doçura, meiguice, tristeza. Maria segredo, palavra, tecido. Maria miúda, menina, beleza. Maria temia a aspereza em si. Guardava a raiva no canto da boca. Fazia ferida, buraco, vertigem. Maria era ética, mas não era livre. A sua verdade calava no peito. Maria soluço, cansaço, tristeza. Maria dormindo […]

ago 24th
domingo
Minha ave II

Meu pássaro não é pomba branca não é de paz, é de luta feito minha alma em chamas minhas cinzas e meu caos Nasci, pois, nas asas negras do abutre à espera de tudo o que definha a fim de tecer o novo sou graúna, e melro, e gralha e o corvo da despedida meu […]

ago 23rd
sábado
Minha ave

Aqui dentro mora um pássaro – não sei se verde ou azul fênix ou andorinha não sei se melro ou colibri. Agita-se assustado na velocidade da luz dança suas asas no peito faz meu jardim na desordem é sagrado e profano feito uma dama escapando das minhas tranças barrocas: sou mulher e minha certeza é […]

ago 18th
segunda-feira
Irmanar-se

  Os olhos dela nos meus vertendo água e saudades – os nossos olhos as dores trocadas mexidas misturadas: uma ânsia de sermos um pouco da outra em nós. Irmanar-se: ouvir a angústia de séculos enredar com os ventos do hoje fazendo matéria viva de amor e revolução.

ago 18th
segunda-feira
Um ato de amor por si

  Permita-se o primeiro raio de sol e faça danças no escuro Vasculhe nos seus sonhos a memória de um verão Acaricie-se e goste – como nunca permitiu. Tenha sempre bem pertinho uma poesia ou um plano para acarinhar o dia Caminhe em linhas tortas e deixe que a lua cheia transforme-a em fera-irmã alimente-se […]

ago 18th
segunda-feira
A grandiosidade

  A grandiosidade é banal, banalíssima belas são as miudezas fazendo nos pelos dos braços um arrepio de dor: quase nada, só um pouco rastejante, murmurante tal e qual uma gota do seu mar na minha pele ou a varanda de casa ou as mangas no quintal ou a lua ou a mãe ou a […]

ago 31st
sábado
Os homens que não amavam as mulheres

  Eles não amavam as mulheres. Nem as crianças que-  já nascidas – fumavam pedra e empunhavam canivetes. As que dormiam ao relento, as que furtavam seus bens – preciosos bens. Eles não amavam os homens que faziam votos de amor a outros homens. Nem as amantes que, encantadas, deitavam-se juntas em meio a borboletas. […]

mar 24th
domingo
Já te disse

  Já te disse, amor e, se não disse, sei que já cantei baixinho enquanto dormias: és minha paz e que se dane o evangelho e todos os orixás. Já te disse, amor, e digo mais uma vez meu corpo apavora diante do concreto e pede a maciez de nossos deslizamentos transpirantes – corpo a […]

mar 24th
domingo
Melancolia

Querida Rebeca, Melancolia é um aperto no fio. Aquele fio delicado que une a alma ao corpo. Melancolia é quando a gente não cabe mais na gente e quer se entregar ao infinito. Onde moram estrelas e poesias e todo beijo tem gosto de orgasmo. Melancolia é quando a gente passa o dia inteiro na […]

mar 3rd
domingo
Pêssego

O desejo de Adélia se esconde na saia. E nas dobras vivas de seu corpo macio. O desejo de Adélia se esconde no laço. Que lhe amarra a cintura, o cabelo, a garganta. Feito um nó dolorido, sobe-lhe o coração: agarra o pescoço e faz um aperto. O desejo de Adélia parece uma dor. Gargalha […]