(in) existências

inaudível

ferida-furo

Joana

ago 29th
domingo
Carta – des-culpas

Houve um tempo. Aquele tempo, Lily. Em que eu romantizava as culpas. As dores. Romatizava as chicotadas que levaria e as minhas escravidões. Só porque jamais fui realmente escrava – a não ser quando me punha em carne viva naquela infinita trama de meus sonhos. Sonhos obscuros que a noite devorava inteiros. E eu acordava [...]

ago 5th
quinta-feira
passar

O tempo resistindo ao adiante: não queria chegar ali. Não ali, onde sabia. Onde se sabia sozinha, ela.  Incompreendida e na mais perfeita paz (que medo, a paz!). Onde não sentiria mais aquela maldita raiva que lhe provocava deliciosos revanchismos, dentes e risos. Não, não mais. Nada mais daquela vileza inocente, tão dela. Tão antiga, [...]

jul 15th
quinta-feira
Carta – o crepitar da pele

Lírio é princesa na torre. Lily é suave. Minha musa-flor, vitória-régia, não sei se é culpa sua, mas ando com vontade de ternuras. Ando excessivamente ansiosa por fazer ternuras. Mais do que receber, ofertar: entregar flores à menina-flor, fazer carícias de vento nos cabelos do menino sozinho, dizer amores ao pai – amores sem palavras. [...]

jul 10th
sábado
e eu que queria vê-la

Ela, tão ali: quase como se fosse tantas outras. Como se fosse ninguém, a invisível. Ela: e não me refiro exatamente a ela. Ela quem quer que seja. Era e é. Muitas, muitas, muitas. Mulher naquelas curvas derrapantes. E puta. Diziam puta sem pudor. Não era carinho.  Tampouco era carinho dizer gostosa. Mas diziam. Enquanto [...]

jul 8th
quinta-feira
a quem (?)

Quero compartilhar com você um segredo: a terra sangra. Sangra tão dolorida e vermelha, tão bonita a terra. Eu não sabia disso até me contarem. Quem me contou foi ela, a viajante abandonada. Ela conhecia todos os mistérios que existem sob o asfalto e além das águas: os mistérios da terra. Pois ali está o [...]

jun 29th
terça-feira
Carta – que morde!

Lily, Aconteceu assim: a mãe estava doente, muito doente. A menina angustiada pés descalços e sabia jogar futebol na rua. Mas não queria jogar mais: queria olhar a mãe. Queria fazer a mãe melhorar. Queria fazer milagre: pediu a deus para ser dona de um milagre bonito que fizesse a doente se erguer e sair [...]

jun 11th
sexta-feira
onírica

Escondi 36 pecados sob o tapete. Desde então me escondo ali também e me ponho a perguntar o que os interdita. Há quem grite  impropérios ao motorista grosseiro, aquele que quis atropelar a jovem pedestre – a distraída.  Há quem insista no impróprio e imoralize as cenas cristalinas. Há quem faça coisas assim. Eu não. [...]

jun 1st
terça-feira
Carta – dessas lágrimas

Crina-ao-vento. Você. Gosto de você. E dizer que se gosta é tão delicado que parece que vai desmanchar. Sempre quis que o amor não fosse promessa. Embora eu, guiada pelas forças ciumentas de plutão, por vezes o segure pelo pescoço e, ameaçando morte, diga: queira-me. Chamaríamos de hipocrisia esses nossos paradoxos? Sei que você paradoxiza [...]

mai 29th
sábado
noiva-ninfa dos feitiços

Ela, pequena, voava faceira; amava viagens: sorria miragens. Veio me contar hoje mesmo que amanhã amanheceria A boca salgava reentrâncias: era oceânica. Foi então que pariu aquele segredo de nome vermelho Era tão rubra que sangrava e suas manhãs espelhadas contavam mil histórias. Nasce a primeira, alva e rendada: * Azuis, meus sonhos eram pétalas [...]

mai 23rd
domingo
Carta – Fecundar-se

Eu sei que o amor deve abrir caminho – e cada caminho que ele abre  se assemelha a uma perda. Tudo por causa dessa mania de achar que amor é fechado. Mas eu ganhei: enquanto bordava os mistérios de um casamento que um dia virá, ganhei você. Você, que já deve saber que logo desejarei [...]